Prefácio
Não poderia deixar de ser meu pai a pessoa indicada para fazer o prefácio de minha biografia. Como ele já faleceu, vou transcrever a seguir um trecho de seu discurso na solenidade de inauguração do Edifício Dr. Paulo Kalume, em 23/01/1988, no qual ele falou sobre minha pessoa. Naquela memorável noite nós estávamos em festa, pois ampliávamos as instalações do laboratório farmacêutico de nossa família e, paralelamente, prestávamos homenagem póstuma a meu amigo de infância “Paulão”, falecido precocemente em maio do ano anterior, aos 38 anos de idade.
“Permitam-me agora algumas palavras sobre meu filho, Teodoro Neto. Sua personalidade é tão marcante que é difícil lhe fazer referências. Menino homem, nunca me deutrabalho, manifestando desde jovem que teria um futuro brilhante pela frente.
Gostaria de relembrar alguns episódios de sua vida. Ainda jovem manifestou vontade de fazer alguma coisa de útil. Lembro-me de seu interesse muito cedo em juntar por conta própria algum dinheiro. Em 1960, com 9 anos incompletos, certa noite quando eu partia para o plantão de nossa Farmácia Sobral ele pediu-me que deixasse colocar na calçada do passeio uma mesinha onde venderia inúmeras revistas usadas de crianças, as quais tinha guardadas. Estava fundada a “Empresa de Revistas Juvenis” de Theodoro F. Sobral Neto; o carimbo da firma foi encomendado a meu irmão Luis Sobral, que o mandou de Salvador. Este carimbo ainda hoje é guardado com todo cuidado por Teodoro Neto. Com o apurado das vendas, metade comprava novas revistas e a outra parte economizava, colocando a juros na firma do Sr. Edmundo Gonçalves de Oliveira, por sugestão do seu tio Alderico Guimarães. Engraçado é que além das revistas infantis, logo começou a se interessar por revistas de adultos. Fu gostava de ler O Cruzeiro, que era a Veja daqueles tempos. Ele então pedia para eu ter cuidado ao lê-la, não amassando-a. Quando a leitura era terminada, ele vendia a revista para outra pessoa. Daí para vender mesmo em larga escala foi um pulo. Como éramos agentes da VARIG, convivíamos diariamente no Aeroporto local, o qual naquele tempo tinha voos diários para todo o Brasil. Lá ele conseguiu com pilotos que trouxessem de Goiânia ou Brasília as revistas: O Cruzeiro, Manchete, Fatos e Fotos, Visão, Manequim, Capricho etc. Essas revistas eram entregues em Floriano no mesmo dia do lançamento no sul do país. Era uma proeza para um menino de 10 anos de idade. Nem em Teresina se achavam revistas no mesmo dia que eram iniciadas as vendas no sul do país. Isto nos valeu uma denúncia na VARIG, feita pelo Sr. Camilo Ferreira, dono da banca de revistas local, a Rosa de Ouro. Ele se sentia prejudicado, pois quando recebia suas encomendas via terrestre, 10 a 12 dias depois que eram lançadas no Rio e em São Paulo, não conseguia vender quase nada, pois o “menino do Dr. Amilcar” já tinha entregado de porta em porta a toda sua freguesia há muito tempo.
Veio um inspetor da VARIG especialmente para apurar o caso, pois era proibido que os pilotos fizessem qualquer transação comercial extra. Felizmente conseguimos convencê-lo de que as revistas eram trazidas de Brasília por amigos que sempre vinham da capital federal e não pelos pilotos como dizia a denúncia, o que era verdade.
O sistema usado para pagamento das revistas era o seguinte: o avião chegava aqui às 12:30 horas. Teodoro recebia as revistas, lá mesmo no aeroporto já vendia algumas; em seguida saía de casa em casa entregando e, por último, botava a banca na porta da Farmácia Sobral. No dia seguinte, as 9:30, já estava com o dinheiro apurado para pagar os pilotos, ficando com o lucro que conseguia, o qual nunca era inferior a trinta por cento.
Até o final de 1964, quando foi estudar na Bahia, Teodoro continuou vendendo revistas. Paralelamente ao período em que vendeu revistas, com minha permissão ele
passou a carregar bagagens dos passageiros no aeroporto, recebendo pagamento deles. Para não prejudicar os carregadores profissionais, a estes eu gratificava com importância equivalente. Algumas pessoas amigas e parentes condenavam a minha atitude e eu respondia que estava lhe ensinando a trabalhar. Outro fato marcante em sua vida foi a revenda de volantes da loteria esportiva. Em 1970, Teodoro passou no vestibular de Economia em Brasília. A faculdade onde estudava era nova, portando só tinha curso noturno. Naquele ano, iniciaram-se no Rio de Janeiro as vendas da loteria esportiva; em Brasília, os cambistas pegavam os volantes do Rio e Teodoro recebia destes e, no voo que vinha aos sábados, enviava-nos os volantes para que vendêssemos aqui em Floriano. Na quarta-feira, devolvíamos os volantes preenchidos pelos apostadores daqui de nossa cidade. Além de cobrar o dobro do preço de cada aposta, recebíamos uma comissão de 3 por cento da loja, já que em 1971 Brasília passou a ter lojas próprias. A partir do movimento ser feito em Brasília, as apostas aumentaram, pois Teodoro passou a enviar volantes também para Teresina, chegando a controlar quase todo o faturamento das apostas do Piauí através de cambistas de nossa capital.
Quando foi aberta proposta para se abrir loja em Floriano, um funcionário da CEF em Teresina não nos avisou, apesar de saber de nosso interesse: perdemos a 1º loja de nossa cidade, mas houve uma tremenda luta por nós empreendida. Finalmente conseguimos vencêla, quando em outubro de 1973 a Loteca 13 Pontos foi aberta. Passamos por muitos vexames, mas acabamos levando a melhor pois a outra loja demorou pouco pois aqui não tinha movimento para duas lojas.
Outra situação Interessante em que convivemos foi a seguinte: sua mãe queria que Teodoro fosse médico; ele dizia que gostava da profissão. Com o tempo passando, sua aptidão por comércio foi se caracterizando e ele passou a dizer que ia ser médico, mas em paralelo também seria comerciante. Por último, uns dois anos antes de fazer vestibular, ficou em dúvida entre economia e engenharia e, por fim, optou por economia, pois acompanhou como era a vida de médico e viu que na realidade não seria um bom médico: além de se arrepiar muito quando via os doentes, o que queria mesmo era ser comerciante. Chegou também à conclusão de que o bom médico tinha que trabalhar às vezes de graça e isto ele não iria fazer para ninguém.
Assim, concordamos que ele seguisse a carreira de economia. Graças a Deus tudo deu certo e ele, após se formar em 16/12/1973, veio para Floriano, iniciando sua vida comercial com a venda do apartamento que tínhamos em Brasília. Com esse dinheiro, pagou tudo que o Laboratório Sobral devia na época, impulsionando-o bravamente, sendo hoje o que todos vocês acabaram de ver: um laboratório de fármacos e de tintura para cabelos, com moderno e completo maquinário alojado em elegante e bonito prédio que é o Edifício Dr. Paulo Kalume.
Obrigado pela presença de todos vocês, principalmente os convidados e clientes que vieram de fora.”
Amilcar Sobral (pai) Floriano, 23 de janeiro de 1988.
PS: Padre Djalma benzeu as novas instalações. Discursaram além de Teodoro e de seu pai, o Dr. Agostinho Reis, em nome da família do homenageado, Paulo Reis Kalume; Francisco Moreira Nunes, amigo de Teodoro; e o deputado Waldemar Macedo, exfuncionário da empresa.